Quando cheguei a esta cidade, cheirando a beira de rio seco e com os ouvidos ainda moucos das estridentes cordas de viola que cortavam as barracas da feira livre, no sábado de mãos dadas com meu pai, cedo da manhã para comer pastel de vento com caldo de cana caiana, a cidade era diferente.
Para os lados de onde o sol nasce, a três ou quatro quadras da janela que ainda dá para um resto de mato cheio de sossego, o fim da infância era de arriscados saltos que dávamos com as bicicletas de dezoito marchas, última geração em se tratando de locomoção individual. Hoje, ao invés das capoeiras e dos morros de terra vermelha, há dezessete andares, quatro ruas calçadas, duas com asfalto e nenhuma bicicleta. Os carros tomaram todo o espaço.
Quando cheguei a esta cidade, segredando medos e desafiado pelo diabo das tentações mundanas e esquinas de vícios, libido e liberdades, tudo era como a palma de uma mão aberta e os dedos ruas calmas, de casas baixas, cadeiras na calçada e a impressão de que de tudo a que eu havia me acostumado no interior, apesar de maior, estava ainda ao meu alcance.
A praia tinha areia esbranquiçada e para ela íamos a pé, um magote de meninos cheios de sonhos para a vida e poluções para as noites, com os olhos esbugalhados admirando todo e qualquer pedaço de leveza feminina inatingível que saía e entrava no mar, depois de deixar a blusinha branca na areia e provocantemente encarar a horda suada e desejosa, contando as moedas para pagar a água de coco. Faz tempo.
Quando cheguei a esta cidade, de sandália japonesa e almoço improvisado, as manhãs de sábado já não eram nas feiras livres da infância e sim perdido entre as prateleiras e poeiras dos sebos da Cidade Alta, para depois subir pela Avenida do Contorno até o Alecrim e mergulhar naquele mar de gente que se ajunta no desarrumar de barracas. Era a festa. De Guimarães Rosa a Ele e Ela, tudo na mesma sacola. Depois a volta suave para casa, sem pressa nem trânsito.
Hoje a cidade é caos. Cresce a olhos vistos e tempo escasso. É desordem, progresso, dinheiro, lama e tudo muito, mercado, supermercados, néons, onde será que isso começa?, a correnteza sem paragem, o viajar de uma viagem a outra viagem que não cessa. A cidade é de outras línguas tão estranhas quanto a dos cantos e ladainhas das procissões e novenas que eu jamais entendi, e agora se confundem entre os galegos, vermelhos como a terra batida que havia três ou quatro quadras daqui de casa e agora não há mais.
São esses dois retratos da mesma cidade que trago guardado no oratório sem santos encostado num recanto do peito que eu chamo já de saudade. Não demora e parto daqui para outra cidade, onde vou chegar com a mesma sandália, um tanto daqueles sonhos que sobraram e o cheiro que já nem é de rio seco, é pura maresia, mangue e Redinha. Qualquer dia volto.
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