Casa nova, aqui:
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quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008
terça-feira, 5 de fevereiro de 2008
Sobre ruas vazias
A cidade vazia faz a festa dos fantasmas. Cada rua outrora ocupada por um movimento ensurdecedor de carros e passos apressados rumo ao nada, pois no fim das contas tudo é fuga, torna-se solene e calma, com sua paz quebrada pelos latidos de três ou quatro cães atônitos com os recantos ermos. Ninguém responde. Nada os enxota.
A cidade vazia abre suas cortinas ao passante solitário que atravessa de um lado ao outro fora da faixa de pedestres num ritmo tido como suicida para dias ditos normais. Há tempo suficiente para bater as cinzas do cigarro duas vezes cruzando uma única rua, acomodar as mãos nos bolsos do casaco alcochoado e criar para tão simplórios atos uma trilha sonora que inclui Luis Melodia cantando Magrelinha, num disco histórico de 1974. O passante quase pode ouvir a música com seus arranjos de metais ecoando como de caixas de som imaginárias postas no alto dos prédios, de tanta calma que faz.
A cidade, túmulo do samba, realiza cortejos fúnebres de Momo aglomerando não mais que duas dezenas de pessoas em filas educadas no caixa do supermercado. Um encontro sem palavras e por isso mesmo empático de pessoas que dividem o mesmo prazer, estranho prazer, de estar cercado do mínimo delas possível.
As coisas, os objetos, as manifestações ocasionais da natureza tomam, portanto, o ritmo que a cidade pede na ausência de quem a torna caos. O zumbido grave das asas dos pombos que rodeiam a matriz torna-se assombrosamente nítido. O sol entra pela janela como se fosse um gato manhoso se enroscando nas pernas do dono, como se pedisse licença e isso possível fosse, até dominar todos os espaços do quarto que dá para a rua deserta.
Deserta não fosse, além dos três ou quatro cães atônitos com os recantos ermos e o passante que bate as cinzas do cigarro duas vezes no asfalto enquanto atravessa, uma bola colorida chutada por cima de um muro insuspeito de ter por trás de si uma criança em pleno exercício do ludopédio.
Uma banda do portão se abre, dois olhos miúdos e assustados saltam à procura da bola que de tão efusiva destoa do tom permanentemente cinza posto no céu da cidade. As pupilas apressadas parecem incrédulas diante das tão poucas coisas que ainda se movimentam na rua. Os cães atônitos silenciam a algazarra, com a atenção seqüestrada pelo barulho do portão. O passante no momento em que bateria as cinzas pela terceira vez no asfalto recua o olhar que cruza com o do menino saindo do portão em busca da bola repousada na sarjeta. Em segundos tudo segue como dantes. De tanto silêncio pode-se até ouvir a festa dos fantasmas pelas ruas da cidade vazia, tanto quanto o quicar da bola colorida.
segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008
Um disco

Um dos melhores discos dos últimos dez anos de música brasileira. Fernanda Takai, vocalista do Pato Fu, revisitando e relendo músicas que foram imortalizadas na voz de Nara Leão. Baixe aqui.
Verdade
"A literatura é uma dessas janelas através das quais podemos vivenciar experiências. Mas esse objetivo é pessoal, absolutamente pessoal; não é para a massa. Costumo dizer que hoje a literatura se aplica a uma seita. Há muita igreja com mais fiéis do que leitores de literatura. E ninguém consegue me desmentir, porque é o seguinte: a tiragem média de um livro é de 3 mil exemplares. Isso significa que há 3 mil potenciais interessados em literatura, dos quais 1,5 mil são escritores. Portanto, sobram outros 1,5 mil. Destes, 700 são jornalistas que, às vezes, são obrigados até a ler, mais os professores. Então, deve ter uns 300 neguinhos que não têm nenhuma veleidade literária, mas que adoram literatura."
Marçal troca tudo em miúdos.
domingo, 3 de fevereiro de 2008
sábado, 2 de fevereiro de 2008
Across the Universe
Você vai estar na Terra durante o carnaval? Caso não, se for dar um rolé pela Polaris, a Estrela do Norte, é só ligar o radinho de pilha a sacar a execução de Across the Universe, dos Beatles, que a Nasa fará para todo o espaço sideral em comemoração aos 50 anos de sua primeira missão. É segunda-feira, às 19h. Fique ligado.
Matcho
"Vou ser sincero: publica o que você quiser. No dia seguinte, eu vou aí na Redação dessa bosta de jornal, eu encho essa Mônica Bergamo de porrada na frente de todo mundo. E nós vamos nos cruzar por aí de novo. Aí a gente vai conversar como homem. Se quer levar como ameaça, leva."
Nervosinho esse marido de Ana Maria Braga, não?
Franceses...
"Para historiador britânico, intelectuais franceses só recentemente passaram a se preocupar com direitos e moralidade política. Os dilemas dos anos 50 não eram eticamente desafiadores. Dilemas da atual situação colombiana são morais", diz britânico"
Na Folha.
Nota da Redação: Para assinantes.
sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008
Onde os Fracos Não Têm Vez

Onde os Fracos Não Têm Vez é um filme que não encerra com os créditos. É desses complexos (não confundir com empulhação) que pedem ruminação, tempo para ser elaborado, digerido. A mais recente obra-prima dos irmãos Ethan e Joel Cohen, baseada no romance homônimo do não menos genial Comarck McArthy, é cinema contemplativo, cuidadosamente repleto de detalhes e perfis tão bem elaborados e partícipes de tamanha violência, que causam estupefação ao invés de repúdio. Da gélida Fargo para a ensolarada El Paso (cidade que serviu de cenário para outro épico moderno da violência, Kill Bill), a aridez da trama permanece inalterada, com doses cavalares de humor negro, personagens freaks e a marca registrada dos Cohen de abster-se do clímax. A perseguição implacável de Anton Chigurh, na pele do soberbo Javier Bardem, a Llewelyn Moss, interpretado com competência por Josh Brolin, tem início quando o segundo encontra numa caçada, entre corpos frutos de uma negociação mal sucedida de drogas, uma mala com milhões de dólares. Daí em diante Chigurh cumpre à risca uma observação do xerife Ed Tom, vivido por Tommy Lee Jones, sobre as motivações do seu ofício: nesse negócio deve-se entrar com a alma. Bardem mergulha tão profundamente no personagem que deixa no espectador a certeza de que não possui uma. É um homem de princípios, por assim dizer, mesmo os mais sórdidos possíveis. No mais, a excelência dos Cohen é defectível no imperativo vazio que se instala nalguns planos seqüência, dando a impressão que o mundo parou para assistir o trabalho dedicado dos irmãos. Estão lá só quem interessa ao filme, à trama, à violência sem redenção e com poucos mas eficazes traços de humanidade. Mas não é isso que acontece quando se está diante de uma obra-prima?
No Country For Old Men, 2008, Cohen Brothers.
Rock
“O show da gente foi a mesma merda de sempre, mas liberaram o PA todo pra gente, ficou aquele sonzão”
Canibal, do Devotos, numa bela entrevista feita por Hugo Montarroyos.
Pop Art

Surrealismo pop e iconoclastia de cair o queixo. São as fotos de David LaChapelle que estão em exposição no MuBE até o dia 05 de fevereiro. Das 13h às 19h, entrada gratuita. Traslado gratuito saindo do Shopping Iguatemi, na Brigadeiro Faria Lima. Imperdível.
quinta-feira, 31 de janeiro de 2008
Sweeney Todd

Musicais, com raras exceções (e a maioria a título de conhecimento antológico, como ver Fred Aister dançando), são coisas chatas e enfadonhas. Conseguir produzir um que não canse o espectador de aos trinta minutos ter visto dez cenas onde os atores congelam seus atos e saem dançando e cantando alucinadamente é um feito e tanto. Pois o diretor Tim Burton, na sua sexta parceria com o ator Johnny Depp, conseguiu e com louvor. Sweeney Todd é um musical onde as canções narram a história e não se comportam como momentos outsiders. O filme é também a produção de Burton que mais se aproxima da dramaturgia, muito disso graças ao gestual acentuado dos atores e a objetividade dos diálogos. Entre eles Sacha Cohen, interpretando o hilário personagem Pirelli. A história de uma vingança meticulosa e sanguinária (filme não indicado para hematofóbicos) de um barbeiro que leva a revanche às últimas conseqüências, se desenrola com reviravoltas instigantes, envoltas numa fotografia impecavelmente soturna, tão sombria quanto seu humor, que tira o fôlego até a última cena. Cena que, aliás, confirma a impressão de ser o trabalho de Burton mais próximo do teatro, de tão shakespeariana que é.
Sweeney Todd, 2008, Tim Burton.
Nem fodendo
Começa nesta sexta (dia 1º de fevereiro) a venda de ingressos para os shows de Bob Dylan em São Paulo. O cantor se apresenta nos dias 5 e 6 de março no Via Funchal. De 1º a 8 de fevereiro, as vendas são exclusivas para clientes Mastercard. Os preços são:
Platéia VIP: R$ 900
Platéia 1: R$ 700
Platéia 2: R$ 500
Platéia 3: R$ 400
Platéia Lateral: R$ 250
Mezanino Lateral: R$ 500
Camarote: R$ 900
Todos os lugares são sentados.
Nota da Redação: Foi uma das coisas mais abusivas que vi na vida. Até para o público paulistano os preços são proibitivos. O pior é saber que no tal camarote vip (Deus do céu, um show de Bob Dylan com platéia sentada!) a maioria não vai saber cantarolar nenhuma música. É isso. A história de um show que eu ia contar para os netos.
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